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MISTICA: Relatorio da Unesco aponta desafios da globalizacao cultural

From: Alfredo Aguirre (choloar@ultranet.com.ar)
Date: Sun May 06 2001 - 05:00:29 AST


To: <rhla-l@gemini.ldc.lu.se>
Cc: <esteticacuantica@eListas.net>

Publicado en "diario Popular", de Pelotas, Brasil, el 6 de mayo de 2001

Identidade cultural e expressões nacionais são desafiados diariamente pelo
processo de globalização, das mais variadas formas. A partir dessa premissa,
a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Cultura, Ciência e Educação)
preparou um relatório sobre diversidade cultural, conflito e pluralismo nos
dias de hoje. O World Culture Report - 2000 (não há versão em português do
relatório) combina uma série de dados em busca de um entendimento da
situação atual.
Eles vão desde o número de línguas vivas existentes no planeta, ainda que
faladas por um número reduzido de habitantes, até a ocupação do mercado
cinematográfico por obras nacionais e estrangeiras, passando pela presença
de imigrantes e pela passagem de turistas pelos diferentes países, dos
gastos por habitantes com produtos da indústria fonográfica e dos países que
têm escritores premiados com o Nobel, entre muitos outros. Ao todo, são 30
tabelas.
A Unesco considera, portanto, a cultura num sentido lato. O número de
imigrantes significa um potencial de troca cultural, assim como o de
turistas. Mas também pode indicar um potencial de conflito, se essas trocas
não encontrarem caminhos de consenso. Isso não permite, no entanto, ignorar
o peso do mercado cultural, especialmente o do audiovisual. Nele, predomina
o poder do cinema de Hollywood, que domina 85% do mercado mundial, segundo
um dos dados do relatório. Não é à toa, portanto, que um filme como
Independence day só pôde ser feito nos Estados Unidos: um presidente
norte-americano comandando toda o humanidade, na luta contra
extraterrestres. Mas é esse o verdadeiro quadro da cultura globalizada?
Na introdução do volume, de 414 páginas, constata-se que a maioria dos
conflitos que têm surgido dentro dos estados nacionais envolvem questões
culturais: a guerra étnica no Kosovo a resistência dos cristãos em Kaduna,
na Nigéria, à adoção de uma legislação islâmica, o levante de chineses na
Indonésia como resultado da crise econômica e a mobilização de três milhões
de indígenas no Equador.

MEDO - "Todos esses conflitos surgiram no curto espaço de tempo iniciado
após a publicação do primeiro World Culture Report, dois anos atrás." Apesar
disso, para a Unesco, "os medos de uma uniformização cultural não tem
sustentação". Mas é preciso reconhecer que o processo de globalização cria
novos desafios e novos problemas. "Ao mesmo tempo em que a globalização cria
novas oportunidades para trocas culturais, novas formas de intolerância e
agressão estão surgindo", afirma. "Xenofobia e racismo, guerras étnicas,
preconceito, estigmas, segregação e discriminação, baseados principalmente
em etnicidade e gênero, estão gerando violência e sofrimento em quase todos
os lugares."

No texto Globalização e diversidade cultural, Elie Cohen, diretor do Centro
Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) francês, começa com a citação de um
estudo publicado nos Estados Unidos, intitulado: A globalização já foi longe
demais?. Para Cohen, a globalização é normalmente apresentada como um fato
consolidado, um constrangimento ao qual temos de nos adaptar. A única coisa
capaz de resistir à globalização, para ele, é a definição de uma
identidade - "em outras palavras da diferença". "A identidade cultural, que
é apenas uma forma de expressar uma inevitável especificidade de estilos de
vida, modos de trabalho e consumo, bem como instituições políticas e
administrativas, é freqüentemente usada como um obstáculo à globalização."
Cohen segue discutindo o papel da cultura em diferentes acordos comerciais
desde os anos 60, narrando as dificuldades e os problemas encontrados nas
negociações desses acordos quando entrava em questão o problema da cultura.
O relatório inclui ainda uma série de discussões sobre a relação entre
cultura e pobreza, iniciativas locais de preservação cultural e casos
específicos de países que são culturalmente diversos, como a Índia, ajudam a
compor um painel sobre a cultura mundial descrita e debatida nessa segunda
parte do relatório da Unesco.

PATRIMÔNIOS - Uma terceira parte do World Culture Report busca apresentar
políticas culturais. Nessa parte, ganha destaque a questão dos patrimônios
culturais e naturais da humanidade. Segundo Laurent Lévi-Strauss, diretor de
patrimônios culturais da Unesco, o período que vai de 1950 a 1970 viu a
adoção pela comunidade internacional de uma série de convenções e
recomendações em torno de questões relacionadas à preservação de heranças
culturais.

Um dos problemas apontados por ele é o de escolher o que preservar em países
subdesenvolvidos, que não produziram obras de caráter monumental. Outra
questão que o preocupa é a ocorrência de uma espécie de "febre de
inscrições" de países em busca de reconhecimento de obras como patrimônio da
humanidade. "Estamos assistindo a um 'efeito de bola-de-neve' na questão do
número de inscritos, encorajados pelo considerável número de novos sítios
culturais registrados a cada ano: nos últimos seis ou sete anos, 85% a 90%
das propostas submetidas receberam pareceres favoráveis."

Há poucas versões do relatório no Brasil. Informações sobre como encomendar
uma cópia, a partir da França, podem ser obtidas na sede da organização no
País, em Brasília, telefone (0xx61) 321-3525, ramais 248 e 286.

Alfredo Armando Aguirre



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